terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O que está nas entrelinhas: Uma leitura do conto "Amor" de Clarice Lispector

A leitura de um texto de Clarice Lispector, a primeira vista parece complicado, no entanto, não trabalhar Clarice em sala de aula é o mesmo que negar ao aluno o que tem de melhor na literatura brasileira. O leitor diante de um texto Lispectoriano precisa de atenção, audácia e treino, portanto, não se pode ficar na superfície do que está escrito.Quando se trata de Língua e linguagem como nossa própria existência de seres humanos e racionais somos moldados pela capacidade de agir pela pela linguagem.Visto nessa perspectiva o texto de Clarice estabelece uma interação com o leitor e essa linguagem é um processo em movimento entre leitor e a recepção que ele faz do texto.
Ao planejar uma aula o professor pode propor aos alunos no mínimo três leituras efetivas do texto antes de tentar responder qualquer questão, a terceira leitura é aquela em que o professor em sala terá que levá-los a dialogar com texto. Um fragmento de um conto de Clarice pode em sua construção sintática e literária, fazê-los com que esse leitor possa através do texto atribuir infinitas possibilidades. Exemplo disso, se atemo-nos ao trecho: "tomavam banho", basta pensarmos nas possibilidades: as crianças tomavam banho onde e como? Pode ser no banheiro, na torneira do quintal, na bacia, na banheira, na chuva,no rio, na piscina, no tanque.É só levarmos em consideração que criança na sua maioria adora brincar com água.A cada releitura de Clarice pode-se ter uma nova descoberta. Porém, quando se propõe uma interpretação temos que lembrar aos alunos que mesmo que consigamos possibilidades diversas no texto, para interpretá-los temos que perguntar ao texto. O texto diz isso? A leitura do texto propõe isso, se for absurdamente fora do contexto do enunciado não há coerência, corre-se o risco de fazermos relação com nossa história de vida e cairmos no pecado da falsa interpretação, o texto por si só responde as questões.
O próprio aluno pode ser incentivado a fazer as correções do texto para entender junto aos outros colegas o processo de inferência de leitura e como chegaram as respostas, claro que o professor tem que ser nesse momento o mediador dessa leitura e correção. Quando o facilitador leva os textos e faz a correção em particular não há para o aluno efetivo aprendizado pois ele não entenderá em seu processo de leitura do texto que o levou ao equívoco do absurdo em sua interpretação.
A aula executada da forma que foi proposta pode até torná-la diferente e divertida, a adrenalina em que ficam os alunos diante das possíveis respostas pode fazer a diferença e fugir das práticas rotineiras.


Professor: Edinaldo Flauzino de Matos



TEXTO: Amor
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam os filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, a sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. [...]
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto – ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
(LISPECTOR, Clarice/Laços de família)

01) No texto “Amor”, no primeiro parágrafo, um pouco do dia-a-dia de uma família é relatado. Assinale a seguir o trecho que mostra a dinâmica da vida:
A) “Os filhos de Ana eram bons,...”.
B) “Cresciam, tomavam banho,...”.
C) “A cozinha era enfim espaçosa,...”.
D) “O calor era forte no apartamento,...”.
E) “Como um lavrador,...”.

02) Ao dizer que Ana olhava o calmo horizonte como um lavrador, é adequado dizer que há a ocorrência de uma:
A) Comparação.
B) Contradição.
C) Oposição.
D) invenção.
E) Mudança.

03) São atribuídas à mão de Ana, qualificações aparentemente opostas: “pequena e forte”. Tais qualificações demonstram:
A) A fragilidade de Ana.
B) Que a personagem não possuía uma força surpreendente diante de quaisquer situações.
C) O entusiasmo de Ana para com a sua família.
D) Que apesar da sua “limitação” demonstrava força diante das variadas situações diárias.
E) Que mesmo tendo uma estatura física comprometida “dava conta” das atividades domésticas.

04) “Certa hora da tarde era mais perigosa”. Qual é o perigo existente de que trata o trecho destacado?
A) A violência da cidade grande.
B) O medo que ela sentia da noite.
C) O perigo de acontecer algum acidente com os filhos no horário da escola.
D) O perigo de acontecer algum acidente com o marido no horário do trabalho.
E) Sentir-se sem utilidade para aquela família.

05) Após a leitura do texto, em relação ao relacionamento familiar pode-se concluir que:
A) É preferível isolar-se e viver em solidão.
B) Apesar de alguns conflitos é preferível relacionar-se com as pessoas.
C) A convivência familiar é muitas vezes insuportável.
D) Na convivência familiar não existem conflitos.
E) Os momentos de decepção são mais freqüentes que os de harmonia.

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