terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Lição de casa 2

Lição de casa 2


RELATO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS EM SALA DE AULA


Na atividade em que foi trabalhada com os alunos, apresentamos a eles, alunos de 6º ano, a letra da música de Chico Buarque: “O meu guri”. Primeiramente fizemos a escrita da música na lousa e propomos aos alunos que copiassem no caderno, estratégia essa usada com o intuito de evitar gastos de folhas impressas para tantos alunos e contar com a letra da música para possíveis levantamentos de sobre a produção de poesia e análise interpretativa.
Após a reescrita da letra da música no caderno, usamos de uma linguagem bem clara, fizemos a possível interpretação do texto, sua temática, ou seja, o assunto abordado. Também apresentamos o autor e cantor Chico Buarque até então desconhecido pelos alunos. Então observamos a fala, a forma de expressar da eu – lírica, aspectos na construção da música: as rimas alternadas e emparelhadas, as estrofes, a sonoridade, a construção dos sentidos. Depois fizemos uma comparação de como seria notícia veiculada em jornais da cidade. Em seguida propomos aos alunos que fizessem uma leitura silenciosa da música e a representassem através de desenhos.


A música de Chico Buarque X Recurso didático em sala de aula

A proposta da pesquisa foi trabalhar a música de Chico Buarque. Então, parte-se do príncipio que nem toda letra de música é poesia. Mas quase todas as letras desse cantor podem ser consideradas excelentes poemas. Ana Maria Machado sublinha que: “ele é um poeta de obra variada, com um lirismo muito característico e extremamente brasileiro” (2001, p.15) Apesar da musicalidade há que considerar que Chico Buarque era um engajado na chamada música de protesto. Para Machado:
Mas a delicadeza dos sentimentos que é capaz de evocar em seus versos não exclui uma boa dose de humor e ironia uma incisiva capacidade de criticar o que considerava errado – como fez com muita força durante a ditadura militar brasileira, quando teve várias músicas censuradas e proibidas pelo governo.(2001, p.15)
Selecionamos a música: O meu Guri, Vale ressaltar que são inúmeras as músicas desse artista que pode ser trabalhada. E também como já citado são inúmeros os artistas que produziram nesta época e que suas músicas quase se tornaram hinos de exaltação ou lembranças do período ditatorial.



O meu guri

Chico Buarque/1981

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri


O Meu Guri (1981). Esse texto lido por um leitor atento às anáforas possibilitará formar imagens que lembrem um filme real, a linguagem quase cinematográfica, como se fosse uma sucessão de fotografias em movimento. Essa é uma canção patético-caótica na qual também é tratado o social. Fala do menino de rua, da mulher e das oportunidades que o sistema proporciona a todos de maneira desigual. E o descaso das autoridades competentes sobre o assunto. Com essa música podemos perceber em Chico Buarque a sua preocupação com a exclusão social e com a maneira que expõe seus pensamentos através da sua linguagem e do tempo. Ele é capaz de mostrar a realidade em que vivemos e o descaso que a maioria sofre, seja qual o período que nos encontramos.
Essa é uma música protagonizada pela mãe de um marginal, favelado do morro, que desconhece a condição e a real natureza do “batente” de seu filho. Vivendo num mundo de ingenuidade, a mãe ignora a tudo, um nome, seu modo de ganhar a vida, inclusive a morte do menor infrator que é notícia no jornal. Nessa canção, Chico mostra o desamparo feminino e, paradoxalmente, a procura em proteger o filho, quando não quer enxergar seus furtos e ainda reza por ele devido à “onda de assalto”.
A mãe é uma analfabeta que não consegue, sequer, ler a legenda do noticiário da morte do filho, que é assassinado pela polícia devido a uma força exercida pela opressão socioeconômica. Acaba deixando-a numa situação patético devido à alienação que age de maneira profunda na classe da qual advém: a pobre. Classe essa que produz em massa, marginais devido às necessidades que o próprio sistema deveria suprir, mas não consegue.
O que pode perceber nessa canção é a falta de estrutura que o sistema proporciona às pessoas em geral, principalmente àqueles que são mais desprovidos socioeconomicamente, gerando o analfabetismo, os assaltos, as mortes.
Essa canção apresenta variações lingüísticas, ex.: a palavra “guri”, e marcas de oralidade, ex.: “ta rindo, papo pro ar”, e também temos as anáforas, na qual os dêiticos indicam a preocupação da personagem lírica em sentir incluída, ter uma história, a preocupação em ter um nome, já que nem a mãe e nem o filho tinham nome. A construção referencial do texto mostra uma personagem lírica equivocada com os referenciais. Ela não era ignorante no sentido mal, apenas a anáforas sociais, se é que podemos chamá-las assim, a falta de cultura, num sentido exagerado fazia com que tivesse tão dúbia interpretação dos fatos.

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